Sobre cães e solitude // crítica de Fernanda Misao

À primeira vista o filme A mulher dos cachorros pode ser uma narrativa cansativa pros espectadores mais acostumados com filmes em que os acontecimentos se desenrolam com mais rapidez. Dirigido pelas argentinas Verónica Llinás e Laura Citarella, com Verónica também atuando no papel principal como “a mulher”, o filme A mulher dos Cachorros é uma narrativa intrigante que prende nossa atenção pela simplicidade.

A história nos conta sobre uma mulher, que aparenta ter algo entre seus 46 e 50 anos, que vive num local isolado, em uma casa construída por ela mesma, com seus fiéis cães. A origem da mulher é um mistério, seu nome e seu objetivo também. Ela parece está constantemente em seu mundo e viver num universo paralelo.

A montagem do filme é cuidadosa em nos mostrar esse dia-a-dia pacífico e a passos calmos da personagem principal, a fotografia é delicada e bucólica e mesmo nos momentos de mais agitação das cenas, a mulher parece não integrar o todo. A trilha sonora só aparece após 30 minutos de filme e tem um tom de musica tribal.

A quebra interessante nesse filme começa por ter uma atriz mais velha no papel principal, também é uma crítica contundente a vida moderna e ao consumismo, pois a personagem se vira como pode, constrói sua casa, vive com seus cães e não da uma palavra em todo o filme. Há também uma cena em que um cão é abandonado, mais uma crítica a como animais são tratados como descartáveis depois de velhos.

A mulher, por morar na floresta sozinha, poderia muito bem evocar o papel de “bruxa”, como é xingada em determinado ponto da trama. Aquela que possui maior ligação com o sagrado feminino, tem conhecimentos da terra e das ervas e não precisa da ajuda de ninguém em sua trajetória. Esse tipo de mulher assusta, por que é independente e dona de si.

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