Militância negra em Kbela // crítica de Inana Sabino

“Não acredito em reforma política que não seja comandada por pessoas negras” diz Yasmin Thayná, cineasta negra carioca de 23 anos que contou com uma recepção calorosa do seu curta Kbela na abertura do Fincar. Influenciada pelas descolonizações do pensamento através da roda de diálogos sobre cinema negro do segundo dia da programação festival, não pretendo aqui “falar sobre” o Kbela ou sobre como uma cineasta tão jovem da periferia do Rio se firma enquanto realizadora engajada encabeçando inclusive a criação da plataforma digital de conteúdos audiovisuais que possuam no mínimo uma área de atuação assinada por uma pessoa negra, o Afroflix, pois esse “falar sobre” já coloca em si uma problemática hierárquica de objetificação, ainda que essa pareça ser indissociável em uma crítica. O que pretendo, no entanto, é  “falar junto” ao curta, à cineasta e à comunidade negra, pois reconhecendo aqui meu lugar de fala enquanto mulher branca, que não sofreu os mesmos preconceitos sofridos pelas mulheres negras, estou em um processo contínuo de desconstrução e descobertas e procurando uma maior sinceridade ideológica.

Num país que vivencia o avanço fascista e no qual impera o mito da democracia racial e as discussões sobre o racismo, muitas vezes nem mesmo reconhecido como existente, ainda são escassas, Kbela vem pra mostrar como o cinema pode ser uma arma potente de luta política e de transformação social. Os cabelos crespos, simbologia maior presente no filme, exemplo-chave de toda discriminação aos traços físicos negros numa sociedade que dita padrões de beleza eurocêntricos, são reencontrados numa cadência metafórica que vai da recusa, assunção até a ressignificação da negritude. Uma das imagens mais simbólicas do filme, apenas a cabeça uma mulher negra imobilizada, recebendo violentamente de sua semelhante uma infinidade de cremes, e outros mil produtos para alisar seu cabelo, demonstra o aprisionamento da mulher negra que busca seguir os padrões de beleza que não a representam e que a violentam. Assim como tornar-se mulher é um processo de conscientização do lugar do corpo feminino na sociedade patriarcal e sua consequente reinvenção, a assunção da negritude é um processo semelhante. É fato que muitos negros não se reconhecem como tal, se designam a partir de “eufemismos” preconceituosos como “morenos” ou  “pardos”, e as mulheres negras, nesse sentido, possuem uma dupla carga de necessidade de reconhecimento, enquanto mulheres e enquanto negras.

“Nunca tinha ouvido o som de um cabelo crespo sendo penteado no cinema dessa forma.” foi o comentário de uma jovem negra após a sessão. De fato, o som possui uma importância narrativa inquestionável e aproxima o curta de uma estética do videoclipe. O processo de criação do filme, segundo a cineasta, foi feito a partir de captação de sons, memórias dos trajetos cotidianos feitos por ela e outros membros da equipe como forma de fornecer, nas suas palavras, um suporte sensorial através do som. A direção de arte também é outro ponto forte, os turbantes, os tecidos dos figurinos e a maquiagem das atrizes foram de uma escolha artística incrível que privilegia o colorido como forma de exaltar a riqueza da diversidade negra, tornando o filme visualmente belo e ressignificando a beleza afrobrasileira. Para além disso, o colocar dos turbantes é um momento de empoderamento, de reconhecimento e de libertação dos paradigmas de aprisionamento pelos quais passam.

Outra imagem cujo simbolismo poderia bem resumir o filme, é quando uma atriz negra se pinta de branco e continua a assim fazê-lo, até que a imagem começa a se inverter e voltar à sua cor original. É o embranquecimento que deve ser combatido, e o retorno às origens culturais estimulado, a luta pelo reconhecimento da identidade negra precisa ser estrutural pois o racismo é estrutural, mas só se pode falar em luta e transformação social a partir de ações coletivas, a união dos diferentes povos e o reconhecimento das suas particularidades mas sobretudo de suas semelhanças, já que revolução não acontece sozinha. É com essa militância através do cinema que Kbela demonstra sua força e promove um espelho de identificação.

 

“O cinema negro contemporâneo é feminino.”

 

Feminismo é revolução.

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