Retratos de Identificação // crítica de Fernanda Misao

Retratos de Identificação de Anita Leandro é primeiramente um filme angustiante. O documentário produzido em 2014 com imagens de arquivo das agências de repressão da época da ditadura militar, conta ao espectador os horrores vividos por Maria Auxiliadora Lara Barcellos, Chael Charles Schreier e Antônio Roberto Espinosa que eram integrantes da VAR-Palmares e foram presos juntos durante uma ação de repressão.

O formato do filme é simples, não conta com grandes inovações estéticas na montagem ou edição, o que também não compromete sua qualidade ou o impacto que ele causa. O filme rouba nossas vozes, nos deixa perplexos. Talvez boa parte dos espectadores que militam hoje por várias causas sociais, ainda mais nos tempos atuais em que o Brasil passa por essa crise política, esse regresso e esse golpe, poderia pensar que “poderia ser eu ali”. Quando os guerrilheiros foram presos eles tinham algo entre 25 e 27 anos e passaram pelas mais diversas atrocidades que se não davam fim a vida, como foi o caso de Chael, deixavam marcas profundas no psicológico durante anos a fio e com a perspectiva desses fantasmas nunca os abandonar, como foi o caso de Maria Auxiliadora.

A intervenção de Anita foi sutil, delicada, fazia poucas perguntas, não “cutucava a ferida”, apenas pedia que os entrevistados falassem sobre algumas fotografias. Em alguns momentos, vídeos em que Dôra fala, são apresentados a nós, e nos passa essa força aguerrida de que ela devia ter, uma imagem de força quase inabalável. Dora fora uma das poucas mulheres guerrilheiras dentre uma maioria de homens.

Quando Reynaldo Guarani entra em cena pra falar de Dôra, temos o retrato de alguém que perdeu também parte de si, que possui uma ferida que talvez nunca vá fechar. Em certo momento do relato, ele interrompe de súbito, sai da cena e câmera fica rodando filmando a parede branca, não há corte, há apenas um sutil ruído ao fundo dos suspiros de Reynaldo. E essa imagem dói, ela tira o folego. Ela nos faz refletir quantas vozes foram caladas durante a ditadura, quantas pessoas desapareceram e seus familiares ficaram a espera de notícias sem nunca saber o que houve.

Anita Leandro da voz essas pessoas em Retratos de Identificação. Nos faz pensar que apesar de nossas vozes muitas vezes serem silenciadas, não podemos desistir, não podemos calar.

 

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