Kbela // crítica de Fernanda Misao

Kbela dirigido por Yasmin Thayná é um filme que vai além de uma história de luta através de uma identificação que, para alguns, pode parecer apenas estética. É o retrato de uma luta, trabalha com metáforas extremamente simbólicas e algumas vezes até violentas, como a cena em que uma das personagens se pinta de branco, o que reflete essa pressão midiática e social para que o negro se embranqueça, quando na verdade é a sociedade que tem que mudar sua visão eurocêntrica do mundo. Em outro momento outra personagem nos aparece aparentemente lavando seu cabelo, quando então esta pega uma panela de começa a areá-la usando o próprio cabelo. A cena é forte, é um quase um tapa, o filme se compromete em denunciar a humilhação que pessoas negras passam por assumir suas raízes. Para elas, assumir quem são nunca é algo fácil. Num país onde “bonito” é a pele branca e os olhos claros, assumir suas raízes é um ato de resistência.

Kbela demonstra uma grande sensibilidade e preocupação com a fotografia e trilha sonora, em apresentar elementos que representam bem a cultura negra, como o canto iorubá. Além de a equipe ser composta por 80% de mulheres negras, dentre elas atrizes, produtoras e diretoras de outros núcleos, também busca falar de representatividade, há também uma atriz transexual e há mulheres com mais diversos tipos de corpo. Como a própria diretora diz, Kbela é um filme barulhento, ele busca mostrar o barulho que o corpo negro faz ao transitar pelos espaços e é muito feliz nisso. É um filme político que ao mesmo tempo em que denuncia o racismo também brinca com ele de forma irônica.

Kbela enquanto filme de arte e enquanto representação de uma luta política é fascinante. Ele vem com esse grito, esse pedido, essa exigência de que as mulheres negras sejam representadas nas telas e sejam respeitadas e vistas nos espaços. Num país que conta com mais da metade de sua população composta por pessoas negras, fica claro que o problema não é a falta de bons atores, atrizes, roteiristas, produtores, a qualidade do filme, mas sim falta de espaço, culpa do preconceito velado existente no Brasil. Este filme é a revelação do que nós, pessoas brancas ou lidas socialmente como brancas precisamos ver, algo que antes era velado e agora está escancarado.

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