A mulher dos cães // Crítica de Brenda Souza

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Quem esteve nesta quinta no FINCAR teve a oportunidade de mergulhar no universo particular de uma mulher que vive isolada do mundo, na companhia de seus cachorros, em um barraco da periferia campestre de Buenos Aires.

O longa-metragem de ficção dirigido por Verónica Llinás inicia com imagens escuras e câmera na mão, é o desconhecido nos sendo apresentado. O espectador ingressa nesta jornada acompanhando compassadamente o dia-a-dia desta mulher ao longo das quatro estações do ano. A decupagem de Llinás nos deixa a cada minuto mais íntimo da personagem, sob ponto de vista privilegiado. Mas demora um pouco para que vejamos o rosto desta mulher, interpretada majestosamente pela própria Verónica. Alias o entrosamento entre ela e seus coadjuvantes – os cachorros – é sensacional, intensamente verossímil. Para os recifenses, que conheceram a nossa “Madonna dos cachorros”, moradora de rua do bairro do Recife Antigo, é impossível não associar, desde sua relação com os cães à sua feição quando quieta e aos trecos e tralhas que carregava consigo. O trabalho de arte, inclusive, muito bem realizado, seja na produção de objetos, detalhes do barraco, do lixo, do material reciclado, seja no figurino e maquiagem das personagens muito apropriadas, fazem que nossa imersão seja ainda mais profunda.

E sem nos falar nada – praticamente não há diálogos – a protagonista e seus cães nos falam muito, nos ensinam a encontrar na simplicidade, no pouco, no que o mundo oferece (ou nos tira), na integração com a natureza como um todo, uma beleza sublime desta arte que é viver. Apesar das agressões que sofre, dos olhares maldosos como na cena da moça da igreja, dos olhares indiferentes quando do seu passeio em meio a várias pessoas em uma festa ao ar livre, e da ausência do olhar como na cena em que a médica lhe receita remédios que não poderia comprar e a faz recomendações sobre atividades que ela já fazia, a mulher dos cães transforma o nosso olhar, nos faz refletir como coisas simples, como um óculos esquecido e a sobra de um refrigerante podem trazer tamanha satisfação. É um tapa na cara de muitos! É um acorda e enxerga!

Com um roteiro sólido, com uma trilha sonora pontual de Juana Molina – músicas de mesmo tom em raros momentos e na transição das estações – e uma fotografia de planos detalhes ricos, planos abertos belíssimos e jogo de profundidade de campo maravilhoso de Soledad Rodriguez, que Llinás nos presenteia com esta película argentina minimalista e expressiva. Ao final desta viagem, uma encantadora e longa cena, em que a câmera se distancia num grande plano geral, estável, claro, tranquilo, em aquela antes insólita e desconhecida mulher e seus cachorros nos convidam a aproveitar a vida, a simplicidade, ao Carpe Diem!

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