A grande aventura // crítica de Brenda Souza

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Neste média-metragem, a diretora brasileira Cassandra Oliveira nos apresenta um recorte do mundo da radionovela cubana. Aqui há a representação de três mulheres, suas diferenças e um ponto compartilhado: a solitude. Dentro de uma metalinguagem, a primeira delas é a Camille Claudel, a renomada escultora francesa que, ao sofrer de um amor impossível, falecera sozinha aos 79 anos em um hospício. No filme, esta é retratada na figura de uma personagem da radionovela “La Gran Aventura de La Humanidad” transmitida pela verídica rádio cubana Progreso. A segunda mulher é a Yolanda, a autora da novela. E a terceira, Margarita, uma senhora cega que escuta diariamente o drama.

Enquanto vivenciamos as etapas criativas e produtivas do melodrama radialístico, percebemos o quanto a história da solitária Camille afeta a vida de roteirista e ouvinte. Yolanda é tão apegada à protagonista que chega a repreender seu filho quando este – que também trabalha no programa – rotula a personagem de louca. O reflexo aparece inclusive visualmente no filme. Há um plano em que a imagem refletida de Yolanda no vidro – divisa do estúdio de gravação – aparece justaposta à da intérprete de Camille na radionovela. Simboliza-se, então, o quanto roteiro e personagem estão no âmago da vida da própria autora, um convívio diário em que, nas falas desta mulher, parece Camille se tratar de uma pessoa real de seu dia-dia.

De modo semelhante, a rotina da senhora cega Margarita é enleada a cada capítulo da radionovela. Enquanto realiza, solitariamente, seus afazeres domésticos em casa, limpando a decoração e os móveis, enxugando os copos e os guardando, escuta comovida a drama de Camille na rádio. Assim como muitas espectadoras brasileiras de novelas televisivas, Margarita telefona para sua amiga no intuito de conversar sobre o desenrolar da história e da personagem, tratando a protagonista também como uma pessoa real em seu cotidiano.

Embora a direção de Cassandra tenha ensejado um fluxo lento a narrativa – o ritmo do média-metragem é demasiado moroso –, este funciona bem ao dar o tom solitário às vidas das mulheres retratadas. Assim como o som ambiente em praticamente todo o filme. É apenas ao final, com a exibição dos créditos dispostos simultaneamente – mais uma vez, a metalinguagem – aos créditos finais da própria radionovela, que ouvimos a uma ressonante composição de orquestra.

Aqui está “A Grande Aventura”, uma radionovela, uma obra fictícia baseada na história verídica de uma grande mulher, que dá sabor a “aventura” cotidiana destas duas outras mulheres desconhecidas uma a outra, mas, ao mesmo tempo, tão enlaçadas por um drama em comum, a solidão.

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